Segunda-feira, 31 de Agosto de 2026 | Horário: 14:00
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Para Bianca, nutrição se faz com alimento, conhecimento e vínculo

Apaixonada pela profissão, nutricionista encontrou na atenção primária da rede municipal o lugar para transformar a alimentação em cuidado, acolhimento e qualidade de vida
A imagem mostra um grupo de mulheres reunidas em uma sala de uma unidade de saúde, posando para uma fotografia ao lado de uma profissional que veste jaleco branco. Elas estão diante de uma mesa decorada com toalha temática, sobre a qual estão dispostos diversos alimentos, como frutas, bolos, pães, salgados, sucos e outros pratos, em um ambiente que sugere um momento de confraternização ou atividade coletiva relacionada à alimentação e à saúde.

Bianca e grupo de pacientes na UBS Paraisópolis III (Acervo/SMS)

Neste Dia do Nutricionista, 31 de agosto, a rede municipal de saúde destaca os 820 profissionais da área que atuam em seus equipamentos, sendo 414 nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs). Esses profissionais têm papel fundamental nas equipes multiprofissionais, atuando na prevenção, identificação, monitoramento e controle de problemas relacionados à alimentação e à nutrição, tanto no cuidado individual quanto coletivo. Para isso, avaliam o estado nutricional dos usuários a partir de dados antropométricos, como peso e altura, e também de informações sobre o consumo alimentar.

Bianca Nociti Toledo, 35, é um destes profissionais. Ela conta que bastaram seis meses de curso técnico para, ainda na adolescência, tivesse certeza de que havia encontrado sua profissão. A área da saúde sempre a atraiu, mas foi na nutrição que descobriu o caminho que gostaria de seguir. Vieram a faculdade, a especialização em saúde coletiva com ênfase em Saúde da Família e uma convicção antes mesmo de receber o diploma: queria trabalhar no Sistema Único de Saúde (SUS).

“Eu sempre falava: ‘Quero ser a nutricionista da UBS, do posto de saúde, que vai ajudar o paciente crônico’”, lembra com um olhar radiante.

Na entrevista para o primeiro emprego depois de formada, ouviu que tinha o perfil para promoção e prevenção em saúde, mas lhe faltava experiência. Rápida, ela respondeu: “Então você pode me abrir esta porta e me dar essa experiência”.

Uma década depois, Bianca continua falando sobre a profissão com o entusiasmo de quem fez a escolha certa. Em sua trajetória, passou por diferentes territórios da cidade de São Paulo, da zona norte à zona sul, por comunidades, áreas de maior poder aquisitivo e até pela zona rural. Já cuidou de muitos idosos e de muitas crianças ao mesmo tempo.

Hoje, ela atua na UBS Paraisópolis III, na zona sul, onde atende moradores da comunidade de Paraisópolis e também da região nobre do Morumbi. Tantas realidades ensinaram à nutricionista que não existe uma única maneira de falar sobre alimentação. É preciso conhecer quem está do outro lado, compreender suas possibilidades e adaptar as orientações à vida de cada pessoa.

“Eu mostro que uma boa alimentação não precisa ser cara”, salienta Bianca. No trabalho de educação nutricional, ela parte de alimentos que podem estar tanto em uma cesta básica quanto nas prateleiras de um hortifrúti sofisticado e aborda questões práticas, como porções, composição do prato e controle do diabetes.

Nome X números
Atualmente, o principal público atendido por Bianca é formado por pessoas com doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), especialmente diabetes. Em Paraisópolis, ela chama a atenção para diagnósticos que aparecem cada vez mais cedo, inclusive entre pessoas na faixa dos 40 anos.

Mas, para a nutricionista, indicadores, exames e números nunca contam a história inteira. “Eu acho que o grande segredo não é usar números. Os meus pacientes não são números. Meus pacientes têm nome e são o amor da vida de alguém.”

E foi justamente um abraço que desencadeou um dos casos mais marcantes de sua trajetória na nutrição. Diabético, com histórico de amputação de dedos dos pés, seu Ivanildo precisava passar por um novo procedimento, mas resistia à ideia. Naquele dia, ao abraçá-lo, a nutricionista percebeu que alguma coisa não estava bem. “Nossa, Ivanildo, o senhor está quente, está com febre.”

A conversa continuou na sala de Bianca e o paciente foi encaminhado ao hospital, onde passou pela amputação necessária. Meses depois, ele voltou à UBS para trocar o curativo. No encontro com Bianca, um outro abraço. E novamente a proximidade que chamou a atenção da nutricionista: havia uma pequena ferida perto do ouvido. Seu Ivanildo foi encaminhado ao dermatologista e recebeu o diagnóstico de câncer. O tumor pôde ser retirado e ele continuou acompanhado pela equipe.

“Esse é o meu caso emblemático de um abraço”, resume a nutricionista, que não fala apenas de dietas, nutrientes, peso ou exames. Fala de pessoas. Para ela, conhecer o paciente pelo nome, conversar e construir confiança não é acessório ao atendimento. “Eu trago os meus pacientes com abraço, com vínculo.”

Se o vínculo é fundamental, fazer com que o cuidado seja prazeroso também é. Na UBS Paraisópolis III, Bianca integra uma equipe multiprofissional que encontrou nos grupos uma forma de ampliar o acesso à saúde.

Um dos exemplos é o Mexa-se, criado com profissionais de fisioterapia e farmácia, que reúne atividade física, dança, orientação nutricional e informações sobre o uso racional de medicamentos. Os encontros chegam a mobilizar entre 120 e 150 pessoas, muitas delas com diabetes. Além dos resultados clínicos, Bianca percebe outra transformação: os participantes passaram a chegar mais cedo simplesmente para conversar e se encontrar. “Vai fazendo sentido, vai sociabilizando.”

O grupo tem até mascote: uma tartaruga, escolhida por representar a longevidade e lembrar aos participantes que “devagar se vai ao longe”.

Outra iniciativa é o NutriInforma, grupo que une educação alimentar com prática. “Cada aula tem a parte de experimentar, que eles acham sensacional”, conta.  A proposta é transformar conceitos abstratos em experiências que possam ser levadas para casa. Em vez de apenas explicar a diferença entre produtos light e diet, por exemplo, ela leva os alimentos para que os participantes possam experimentar e comparar. Já houve até aula sobre variedades de batata-doce, preparadas pelas participantes.

Conquistas
Ao longo da carreira, Bianca já cuidou de públicos muito diferentes. A experiência ensinou que a educação nutricional precisa respeitar cada fase da vida. “Quando a gente vê um idoso, a nutrição para ele já é algo de conforto, e para uma criança precisa de uma introdução e de um conhecimento da alimentação.”

Também trabalhou com pacientes acamados, alimentação por sonda e atendimento domiciliar. Recentemente, concluiu uma pós-graduação em cuidados paliativos, ampliando ainda mais sua atuação junto a pessoas que precisam de um olhar individualizado para a alimentação e a qualidade de vida.

Mas são as histórias concretas que reforçam esse percurso. Bianca se lembra de uma de suas primeiras pacientes, na zona norte. Com obesidade relacionada ao consumo de ultraprocessados, a mulher perdeu 10 quilos em dois meses.  Quando voltou ao consultório, não quis subir na balança. Tinha uma conquista maior para contar: “Antes da gente começar a nossa consulta, eu gostaria de agradecer você, porque há uma semana eu consigo passar a catraca do ônibus para sentar com meu filho no lado de trás.”

Para ela, são situações como esta que mostram que o resultado de um atendimento nutricional nem sempre é apenas uma questão de balança, pesos e medidas.

A Nutrição na rede municipal  
A Secretaria Municipal da Saúde (SMS) conta com a Área Técnica de Saúde Nutricional, responsável por coordenar e orientar as políticas, diretrizes, projetos e ações de prevenção, promoção e cuidado nutricional, baseado nos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS).

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