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Quarta-feira, 20 de Maio de 2026 | Horário: 17:17
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Projeto do Consultório na Rua que atende mulheres trans ganha prêmio estadualIniciativa desenvolvida na Zona Oeste foi reconhecida por promover cuidado integral, adesão ao tratamento e reinserção social de mulheres trans e travestis

Iniciativa desenvolvida na Zona Oeste foi reconhecida por promover cuidado integral, adesão ao tratamento e reinserção social de mulheres trans e travestis

O projeto “Serei A do asfalto com mais de 35 anos. Um bom par entre longevidade trans e o Consultório na Rua”, desenvolvido pela equipe do Consultório na Rua (eCR) do Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, foi um dos 20 vencedores do Prêmio David Capistrano durante o 39º Congresso de Secretários Municipais de Saúde do Estado de São Paulo (Cosems/SP), realizado em abril, em Santos.

Com mais de 2.700 trabalhos inscritos, o prêmio é considerado um dos principais reconhecimentos a iniciativas inovadoras e de impacto na saúde pública paulista. O congresso teve como tema “O SUS e o EnvelheSer: estratégia para uma longevidade digna e com equidade”.

Desenvolvido desde 2023 na região de Pinheiros, o projeto é voltado ao atendimento de mulheres trans e travestis em situação de rua e vulnerabilidade social. A iniciativa parte da realidade de que a expectativa de vida dessa população no Brasil gira em torno de 35 anos, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), índice significativamente inferior à média nacional de 76,6 anos, conforme dados do IBGE.

“A vida das mulheres trans é permeada por inúmeras barreiras por conta das violências estruturais e da exclusão social. Muitas têm vínculos familiares rompidos e acabam vivendo nas ruas, enfrentando dificuldades de acesso à alimentação, moradia, emprego e cuidados básicos de saúde. Envelhecer com dignidade, nesse contexto, é também uma forma de resistência”, afirma o enfermeiro Gabriel Bajadares da Silva, integrante da equipe.

O nome do projeto faz referência à canção “Serei A”, da artista trans Linn da Quebrada, como símbolo da resistência e da permanência dessas mulheres em contextos marcados pela vulnerabilidade social.

Cuidado integral e fortalecimento de vínculos
A iniciativa surgiu a partir de reuniões de matriciamento entre o Consultório na Rua e a Unidade de Referência à Saúde do Idoso (Ursi) Geraldo de Paula Souza, que identificaram demandas específicas dessa população.

“A partir da escuta das mulheres trans em situação de rua e acolhimento social, elaboramos estratégias de cuidado para ampliar o acesso à saúde e melhorar a qualidade de vida dessas pacientes”, explica o médico Vinícius Ramos Bezerra de Morais, também integrante da equipe.

O trabalho do Consultório na Rua inclui abordagens nos territórios, escuta qualificada, consultas, coleta de exames, administração de medicamentos, acompanhamento de tratamentos e encaminhamentos para diferentes serviços da Rede Municipal de Saúde.

Entre os resultados destacados pela equipe está a ampliação da adesão ao tratamento de HIV e tuberculose. No caso das pessoas vivendo com HIV, o acompanhamento contínuo e o fortalecimento do vínculo contribuíram para a redução e até a supressão da carga viral em pacientes atendidas.

“No caso das pacientes que vivem com HIV, o vínculo criado pela equipe possibilitou a adesão ao tratamento e a redução da carga viral, muitas vezes até níveis indetectáveis”, explica Gabriel.

A equipe também utiliza estratégias como o Tratamento Diretamente Observado (TDO), recomendado pelo Ministério da Saúde para casos de tuberculose, em que o profissional acompanha presencialmente a ingestão da medicação para garantir a continuidade do tratamento.

Reinserção social e resgate da cidadania
Além da assistência em saúde, o projeto atua na reintegração social e no fortalecimento da autonomia das pacientes, auxiliando na regularização documental, acesso a benefícios sociais e retomada dos estudos.

“O cuidado vai além da saúde. É preciso garantir direitos, autonomia e oportunidades para promover uma saída qualificada da situação de rua”, destaca o médico Vinícius.

Nesse processo, a equipe também orienta e encaminha usuárias para programas municipais, como o Transcidadania, iniciativa da Prefeitura de São Paulo voltada à reinserção social e qualificação profissional de pessoas trans em situação de vulnerabilidade.

A paciente identificada pelas iniciais P.O.P.C., de 41 anos, relata a importância do acompanhamento realizado pela equipe. “Eles me ajudam muito. São pessoas maravilhosas. Pode estar sol ou chuva, que eles me visitam para tomar o remédio”, conta.

Natural de Belém (PA), ela vive em São Paulo há mais de duas décadas e afirma que o atendimento recebido ajudou a reorganizar sua vida. “Hoje tomo os remédios direitinho, faço acompanhamento, consegui meus documentos com meu nome social e quero voltar a estudar e rever minha família”, diz.

Para os profissionais envolvidos, o reconhecimento no Cosems reforça a importância de políticas públicas voltadas à população trans em situação de vulnerabilidade e amplia a visibilidade do trabalho desenvolvido pela rede municipal de saúde de São Paulo.

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