Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa
Desconstruir São Paulo, abrir espaços públicos
Paulo Bastos*
Sou paulistano do Brás. Nele vivi dezoito anos, depois no Centro e na Aclimação. Hoje moro no Alto de Pinheiros. Apesar de seus problemas, gosto muito desta cidade. Arquiteto e urbanista, sou sobretudo cidadão. Tenho trabalhado em diversos projetos de urbanismo, como da Operação Urbana Água Espraiada,ou da urbanização de favelas em Guarapiranga, e também em arquitetura e restauro, como o da Catedral da Sé, por exemplo. Ao mesmo tempo tenho atuado junto a entidades de moradores de bairro, ajudando na luta coletiva pela conquista de uma cidade melhor.
As primeiras sociedades organizadas de moradores surgiram exatamente nos chamados bairros-jardins, como o meu, para defender a qualidade de vida e moradia que neles existe. As calçadas e canteiros gramados e arborizados , somados à baixa taxa de ocupação do solo, com grandes recuos e, portanto, alta permeabilidade do solo, e o reduzido índice de aproveitamento permitido, foram normas previstas nos planos feitos para a Cia. City por Barry Parker, urbanista que projetou cidades-jardins na Inglaterra.
Tendo por base o movimento de fins do século XIX e começo do século XX, de reação contra a degradação urbana resultante da concentração industrial, imaginaram-se cidades livres daquilo que diversas cidades inglesas exibiam: completa ausência de vegetação, ar poluído pela fumaça das chaminés, acúmulo da pobreza, habitações e ambientes insalubres.
Parker transportou esse conceito para cá, ao projetar diversos bairros-jardins. O resultado é que o conjunto desses bairros é hoje responsável, no verão, por 3 a 4 graus a menos de temperatura em toda a cidade, dada a mitigação de temperatura resultante da vegetação neles existente.
A retenção de água no solo, propiciada pela massa arbórea e as áreas de alta permeabilidade, influem decisivamente, também, na minoração das enchentes. Estas ocorrem, basicamente, porque, com os rios canalizados e a cidade inteiramente pavimentada, toda a água da chuva, sem possibilidade de infiltração, corre rapidamente para os lugares mais baixos, inundando-os. Antes, os rios, transbordando, alagavam as várzeas, voltando depois ao leito normal, existindo mesmo um ecossistema adaptado a esse processo.
O fato é que o resultado da concepção urbanística dos bairros-jardins ajuda a qualificar a cidade, dado que o conforto ambiental por eles propiciado vai muito além de seus limites, sem falar no grande retorno de aves diversas que passaram a ser, também, seus moradores.
No restante, a cidade é a espécie de acampamento que todos conhecemos. São Paulo, aldeia jesuítica paupérrima até meados do século XIX, em período muito curto tornou-se uma metrópole. Os fazendeiros de café, com a ajuda da mão-de-obra dos imigrantes, enriqueceram, a aldeia foi se tornando entreposto de chegada e saída de mercadorias.
Com a industrialização promovida pelo capital cafeeiro e a conseqüente expansão imobiliária, a cidade começou a atrair a mão-de-obra do interior do País. Com raras exceções, esse processo chamava as pessoas para trabalhar, mas não lhes dava condições para habitar, para morar, para viver.
As outras grandes cidades do Brasil, nessa época - Rio de Janeiro e Salvador -, tinham sido capitais de império. O poder imperial criou nelas grandes áreas públicas, passeios, palácios, igrejas, áreas urbanizadas. São Paulo simplesmente saltou de aldeia para metrópole, fazendo de tudo para varrer para debaixo do tapete seu passado aldeão. O conceito de modernidade de São Paulo, de cidade que não pára, é uma espécie de auto-afirmação de um assentamento que era paupérrimo, com estrutura precária e de repente cresceu, expandiu-se e acabou virando o que está aí.
A cidade teve pouquíssima ou nenhuma regulação, em seu crescimento. Na década de 1970, houve uma tentativa mais efetiva de controle urbano, com o chamado zoneamento. Estabeleceu-se onde eram as zonas estritamente residenciais, as industriais, as mistas, com seus respectivos índices. O zoneamento teve o seu papel, mas é um instrumento pouco preciso de controle urbano. Não chega à sintonia fina do que são os bairros, da morfologia peculiar a cada um, não só a arquitetônica urbanística e paisagística, mas também a topográfica, com suas colinas, várzeas, rios. O controle pelo zoneamento, em conseqüência, foi sendo constantemente violado e alterado em função de interesses empresariais e de caráter imobiliário, de uma sucessão de obras viárias, raramente em função da qualificação urbana e, sobretudo, de quem mais precisa de fato, que são as classes menos favorecidas.
Não dispomos de espaços públicos. As praças são poucas e estão gradeadas, em abandono. Há um ou outro parque, como o Ibirapuera e o Parque do Carmo, que são intensamente utilizados porque as pessoas não têm outro lugar para ir. De certa forma, é preciso desconstruir São Paulo, para abrir espaços públicos. Precisamos de intervenções urbanas que abram tais espaços, sem expulsar a população crente. Pelo contrário, devemos promover o retorno dos que, por falta de alternativa, vivem na periferia; devemos promover seu retorno para o centro que está sendo abandonado, apesar de contar com toda a infra-estrutura necessária - viária, de comunicações, de água, de esgoto, de luz. Precisamos reocupar o centro, com uma densidade adequada, sem, portanto, uma verticalização desenfreada.
Roma, por exemplo, há 120 anos não permite construções que ultrapassem a cúpula da Basílica de São Pedro. Buenos Aires se caracteriza por manter definido um padrão de altura que a torna a cidade agradável que é. Essas coisas todas têm a ver com morar bem. Porque este conceito não se restringe a morar bem na sua casa, apenas. Morar, hoje, é morar na cidade. A cidade é a casa, a casa é a cidade, como já dizia o mestre Vilanova Artigas. A cidade foi feita para a gente viver em seu sentido pleno, não apenas para sobreviver nela.
* Paulo Bastos é professor, arquiteto e urbanista, foi presidente do Condephaat e é autor de diversos projetos premiados em exposições nacionais e internacionais, como o do restauro da Catedral da Sé e das fachadas do Tribunal de Justiça, da urbanização de favelas em Guarapiranga, da revitalização da Rua do Gasômetro, do Clube Paineiras do Morumby, entre outros.
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