Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa
O poeta inexistente que criou vida
Sucesso do curta Satori Uso revela que a estratégia do heteronômio, cultuada por Pessoa e Borges, está se reinventando
Jotabê Medeiros
A poesia dele toca o espectador. Sua figura arredia, do tipo que busca a invisibilidade, também emociona. Mas há um porém: ele não existe, nunca existiu. O poeta japonês Satori Uso, no entanto, tem feito sucesso como protagonista de um filme de 17 minutos, cujo ponto de partida é Satori Uso, filme feito por Jim Klein, um cineasta americano que também não existiu.
Satori Uso, o personagem, foi criado pelo escritor Rodrigo Garcia Lopes em 1985, quando ele editava uma página literária dominical no jornal Folha de Londrina. 'Eu acabara de voltar da Europa, estava muito influenciado pelo zen-budismo e pela poesia oriental. Eu queria muito publicar esses novos poemas, que pareciam refletir uma outra personalidade. Como achei que seria antiético publicar na página que eu mesmo editava, resolvi criar um heterônimo', conta Rodrigo, que há um ano e meio leciona literatura portuguesa na Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill, nos Estados Unidos.
Em japonês, satori quer dizer iluminação, e uso é mentira, mentiroso. Satori Uso seria então uma falsa iluminação. 'Londrina é uma cidade de grande colônia japonesa, por isso me pareceu verossímil, um lugar onde temos inclusive reuniões de grupos de haicais. Muita gente da colônia o procura até hoje. Folheando um livro de uma artista plástica nipo-brasileira, achei uma foto em preto-e-branco de um velhinho de boina tomando missô. Olhei e pensei: eis o Satori Uso!'
A página foi publicada uma semana depois da 'morte' de Satori Uso (1925-1985). Ou seja, o poeta já nasceu morto. O escritor Paulo Leminski, quando leu aquilo, ligou para Garcia Lopes de Curitiba para pedir informações. 'Mas como você me escondeu isso? Eu preciso saber de tudo!'. Rodrigo se desmascarou: 'Leminski, o Satori Uso não existe.' Leminski deu uma gargalhada: 'Melhor ainda!'
Rodrigo Garcia criou uma biografia e uma personalidade para o autor. 'Entre outras coisas, ele teria participado da vanguarda japonesa e imigrado para a Califórnia no fim dos anos 50, onde virou amigo dos beats e mergulhou no jazz e na cultura americana. Daí ele recebeu um convite da família Akiro para imigrar para o Brasil. Na viagem de navio perdeu toda sua obra. Passou a ser uma pessoa calada e cada vez mais misteriosa, um poeta das sombras. Escrevia seus haikais em tiras de papel que ele jogava imediatamente após escrevê-los. Os discípulos iam literalmente apanhando seus poemas pelo chão.'
Há um ano, o cineasta Rodrigo Grota, fascinado pelo personagem, resolveu fazer um filme. Garcia Lopes, além de ceder o personagem e seus poemas, foi co-autor do roteiro e indicou o ator, o escritor Rogério Ivano, que materializaria uma figura que só existia na sua cabeça. Ele considera que não há nada de tão novo na invenção de heterônimos, personas poéticas e literárias. 'Na época em que criei o poeta no jornal, também havia a intenção de mexer com o conceito de 'verdade' jornalística, e isso acabou desaguando num documentário fake. Satori habita um terreno movediço entre ficção e verdade, além da questão da autoria. É uma faca de dois gumes para quem inventa um personagem.'
A figura de um poeta japonês de escrita erudita perdido nos campos do Norte do Paraná é familiar a quem é da região. É célebre o rigor do fotógrafo-agricultor Haruo Ohara (1909-1999), cujas fotos chegaram ao Masp.
Satori é dessa linhagem. 'Um apaixonado pela vida, pela linguagem, e as marcas do zen-budismo: o culto ao silêncio, à natureza, o humor, a aceitação das coisas como são. A capacidade de encarar a dor e as perdas com humor, com leveza, às vezes até com certo sarcasmo', diz Garcia Lopes. 'Como diria Flaubert, Satori Uso sou eu. Assumi com tanta veemência este heterônimo, que certos poemas que escrevo já designo como autoria de Satori Uso, como se eles pertencessem ao personagem.'
(SERVIÇO)Serviço Satori Uso. , 18 h. Grátis
Uma aula de cinema em apenas 17 minutos
LUIZ CARLOS MERTEN
POEMA FILMADO: Melhor curta do recente Festival de Gramado, Satori Uso ganhou prêmios da crítica e o de aquisição do Canal Brasil, mas foi contemplado pelo júri oficial só com o prêmio de fotografia.
Não que a fotografia de Carlos Ebert não seja fundamental no conceito do filme (além de ser muito bem resolvida, do ponto de vista técnico e artístico). É que Satori Uso merecia mais - o Kikito de melhor filme, que o júri outorgou a Alphaville 2007. No mínimo, o prêmio de direção.
Para falar sobre Satori Uso, talvez seja interessante recorrer a autores que certamente estão no centro das referências de cinéfilo do jovem diretor paranaense Rodrigo Grota. Ele viu, sem sombra de dúvida, Zelig, de Woody Allen, e Verdades e Mentiras, de Orson Welles (e François Reichenbach). O segundo, em especial, baseado na obra do falsificador Elmyr de Hory, tinha tudo a ver com a falsificação de Satori Uso.
O filme sobre um poeta que nunca existiu é assinado por um documentarista imaginário, Jim Kleist. Nenhum dos dois existe, mas Rodrigo Grota, com base nas investigações descritas na reportagem acima, criou o correspondente cinematográfico do poeta, este cineasta para o qual inventou uma filmografia e um estilo.
Jim Kleist nunca concluiu um filme. Satori Uso visava a sombra e o silêncio. Como contar a história de um homem que não quer aparecer? Satori é revelado por meio de Kleist e de Satine, sua musa, cujo nome é a uma homenagem a Nicole Kidman de Moulin Rouge, de Baz Luhrmann.
Esplendidamente escrito, filmado, fotografado e dirigido, Satori Uso concentra toda uma aula de cinema (e arte e vida) em 17 minutos. Este grau de sofisticação não é muito freqüente no cinema brasileiro de qualquer formato.
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