Secretaria Municipal da Saúde
Afeto constrói a jornada da médica Cibele na Emad Vila das Mercês

Cibele faz visitas domiciliares para realizar consultas e exames (Acervo/SMS)
A paulistana Cibele Mendes Carrera, de 40 anos de idade, descobriu que havia sido escolhida pela medicina ainda na infância. “Eu era aquela criança que naturalmente se dedicava a amparar e proteger amigos.” Primeira médica na família, é motivo de orgulho, porque ali todos sabem que Cibele transformou um traço de sua personalidade em vocação e, assim, construiu seu caminho profissional com muita resiliência e focada na conquista para além do sonhado jaleco, o compromisso com a vida.
Tanto que a partir da disciplina preferida na escola, a biologia, ela foi plantando sementes até conquistar uma vaga em medicina, na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em 2008. Já inserida na prática, desde a graduação, descobriu a medicina de família e comunidade. “Meus olhos brilharam, fiquei encantada”, conta.
Em 2014, quando ingressou na residência médica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), durante um estágio na Equipe Multiprofissional de Atenção Domiciliar (Emad), encontrou o caminho do coração, segundo ela, ao deparar-se com a oportunidade de entrar na casa das pessoas, de compreender as dinâmicas familiares e sociais e de vivenciar o processo de cada um de perto, tendo o cuidado como finalidade.
Era o prenúncio de sua grande missão: os cuidados paliativos que hoje ela exerce, desde 2016, na Unidade Básica de Saúde (UBS) Vila das Mercês, pela Emad. Sob seus cuidados estão os pacientes da região da Supervisão Técnica de Saúde (STS) Ipiranga. Foi então que, em 2021, Cibele deu mais um passo fundamental em sua trajetória ao realizar o curso de aperfeiçoamento nesse campo, no Instituto Paliar, o que lhe aferiu maior aptidão prática e propósito para contribuir em uma estratégia de assistência que nos últimos anos tem estado em evidência na saúde pública e privada.
Em 2024, a cidade de São Paulo publicou a Diretriz Técnica de Cuidados Paliativos na Atenção Domiciliar, em consonância com a publicação da Política Nacional de Cuidados Paliativos (PNCP) no Sistema Único de Saúde (SUS) e a Política Municipal de Cuidados Paliativos.
Cuidado e presença são rotina
Para a médica, o cuidado paliativo vai muito além do que a teoria prevê. “O que acho lindo é essa possibilidade de trazer conforto e esperança em um momento tão difícil para familiares e para o paciente. É isso que me faz brilhar os olhos: a possibilidade de cuidado integral em um momento em que a cura pode não estar presente, além de amenizar dor ou sintomas”, afirma.
Diariamente, Cibele e a equipe multiprofissional compartilham o trabalho e trocam experiências que ela valoriza. Organizam a agenda para evitar internações desnecessárias e garantir o cuidado com dignidade e afeto, pois a maioria está acamado, em estágios avançados das doenças que os acometem, entre crianças, adultos e idosos. Com o “consultório na mochila”, a médica caminha de porta em porta, realizando anamneses detalhadas, exames físicos e revisando sintomas para devolver algum bem-estar a quem atende.
Conexões humanizam atendimento
Um paciente na faixa dos 50 anos de idade, com câncer de cabeça e pescoço, escreveu um capítulo marcante dessa história. Inicialmente arredio, relembra a médica, ele se recusava a receber as medicações prescritas. Foi aí que Cibele e a equipe decidiram fazer visitas semanais, em vez das quinzenais programadas para aquele caso.
Ao perceber que os profissionais iam até ele com uma empatia sincera, foi cedendo ao cuidado. “Ele, então percebeu que não estava sozinho nessa, daí se abriu, aceitou o suporte que a gente estava ali para ofertar, e partiu acolhido em um vínculo profundo”, emociona-se ao mencionar a gratidão da família do paciente.
O mesmo sentimento obteve dos parentes de uma senhora com graves problemas cardíacos e renais, que manifestou o desejo de interromper as exaustivas sessões de diálise que já não faziam efeito. Diante do impasse com um dos filhos, que insistia no tratamento, a Emad promoveu uma reunião familiar para que expusessem a situação e compreendessem que, naquela situação, respeitar a vontade da matriarca naquele estágio da vida seria benéfico. Graças a essa mediação sensível, cercada pelo carinho dos filhos ela se despediu da vida como desejava.
Q+
Para sustentar uma rotina que lida tão de perto com a finitude, Cibele conta com “uma imensa força interior”. Além de se definir pela fé, a médica apaixonada por música, toca violino e, aos sábados, dedica-se ao canto religioso na comunidade da qual faz parte. Casada com Bruno e mãe da pequena Helena, de 2 anos de idade, ela diz que os momentos em família são o combustível para continuar nessa profissão que para ela é missão.
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