Secretaria Municipal da Saúde
Combate à mortalidade materna: Saúde da capital fortalece atenção às gestantes

A enfermeira Fany Faviola Mendoza Quispe, da AMA/UBS Integrada Jardim Castro Alves, realiza avaliação obstétrica com doppler fetal na casa da gestante Josiane Maria da Silva, 40 anos, grávida de gêmeos com diabetes gestacional (Acervo/SMS)
O combate à mortalidade materna é uma das prioridades da Prefeitura de São Paulo dentro das políticas voltadas à saúde da mulher. Com foco no fortalecimento do pré-natal, na qualificação das equipes e no reconhecimento precoce de situações de risco, a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) vem ampliando estratégias para enfrentar as principais causas de morte materna na capital, especialmente as síndromes hipertensivas da gestação, por meio de ações integradas que envolvem desde a Atenção Primária até os serviços hospitalares e de urgência e emergência.
A Razão de Mortalidade Materna (RMM) mede o número de mortes de mulheres durante a gestação, parto ou até 42 dias após o nascimento do bebê, por causas relacionadas à gravidez ou agravadas por ela, a cada 100 mil nascidos vivos. A redução deste indicador depende tanto do fortalecimento dos serviços de saúde quanto da articulação de políticas públicas capazes de diminuir vulnerabilidades e ampliar o acesso das mulheres aos seus direitos.
Como se trata de um evento raro, mas de grande gravidade, a epidemiologia utiliza médias trienais para avaliar tendências e evitar distorções provocadas por anos atípicos. Na cidade de São Paulo, a pandemia de Covid-19 impactou diretamente os indicadores, já que entram no cálculo também óbitos causados por outras doenças. Na capital, a RMM atingiu 45 mortes por 100 mil nascidos vivos no triênio 2021-2023 e caiu para 41,9 no período de 2023-2025.
Em números absolutos, em 2021 foram registrados 89 casos, resultando em um indicador de 65,1, enquanto de 2024 até o momento foram computados 46 casos, representando uma RMM de 38,1, demonstrando redução significativa do índice. No país, a Razão de Mortalidade Materna foi de 48,7 óbitos por 100 mil nascidos vivos em 2024.
“É importante esclarecer que os dados de mortalidade materna são continuamente monitorados e revisados pelos serviços de vigilância e pelos comitês especializados”, enfatiza Cláudia Maria Serafim Giaccio, assessora técnica da Saúde da Mulher da SMS e presidente do Comitê de Mortalidade Materna do Município de São Paulo. Segundo ela, sempre que surgem novas informações clínicas, laboratoriais, administrativas ou de investigação epidemiológica, um caso pode ser reavaliado. “A atualização contínua é essencial para o adequado planejamento de políticas públicas, identificação de falhas assistenciais e fortalecimento das estratégias de prevenção da mortalidade materna.”
Síndromes hipertensivas
Hoje, as síndromes hipertensivas da gravidez estão entre as principais causas de morte materna no Brasil, ao lado de hemorragias e sepse. A pré-eclâmpsia, principal manifestação dessas síndromes, é uma doença complexa e multissistêmica, que pode comprometer diferentes órgãos e sistemas do corpo da gestante.
Segundo Cláudia, um dos maiores desafios da assistência é justamente reconhecer precocemente complicações em mulheres inicialmente classificadas como de baixo risco. “Muitas vezes, a gestante sem fatores de risco aparentes é justamente aquela em que a complicação não é esperada. Por isso, toda a rede, da Atenção Básica à assistência hospitalar, está preparada para identificar sinais precoces de gravidade, garantindo escuta qualificada, acompanhamento pós-parto e acesso oportuno ao atendimento especializado”, afirma.
Para enfrentar esse cenário, a SMS lançou, em 2024, em parceria com a Rede Brasileira de Estudos sobre Hipertensão na Gravidez (RBEHG), o programa “Zero morte de mãe paulistana por hipertensão na gestação”. A iniciativa tem como objetivo capacitar profissionais de toda a rede municipal, incluindo a Atenção Básica, para reconhecer precocemente sinais das síndromes hipertensivas e encaminhar rapidamente as gestantes aos serviços de urgência e emergência.
Sulfato de magnésio é utilizado em casos graves
São Paulo também foi pioneira no uso do sulfato de magnésio ainda na fase pré-hospitalar para casos graves de pré-eclâmpsia, estratégia implantada há mais de 20 anos. Antes disso, o medicamento era administrado apenas nos hospitais. Em parceria com a RBEHG e o Institute for Healthcare Improvement (IHI), foi estruturada uma linha de cuidado pactuada para garantir atendimento rápido, reconhecimento precoce da gravidade e início imediato do tratamento ainda nos primeiros pontos de atendimento da rede, incluindo Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e serviços de urgência e emergência 24 horas.
Com isso, a cidade avançou na organização da assistência às síndromes hipertensivas da gestação, reduzindo o risco de convulsões, evitando a piora clínica da gestante e ampliando as chances de desfechos seguros para mãe e bebê. “O treinamento das equipes é essencial em todos os níveis de atenção. A aplicação correta do sulfato de magnésio pode salvar vidas”, destaca o ginecologista Edgar Britto, interlocutor de Saúde da Mulher da Coordenadoria Regional de Saúde (CRS) Sul.
Segundo Edgar, alterações aparentemente discretas na pressão arterial já podem indicar risco de evolução para quadros graves. “Uma medição de 130 por 90, por exemplo, pode implicar na necessidade de reavaliação precoce para confirmar possíveis alterações e iniciar o acompanhamento adequado”, explica.
Além da preparação das equipes para situações de emergência, a SMS reforça a importância do pré-natal contínuo e qualificado nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs), incluindo exames, testagens e acompanhamento longitudinal da gestante. Um eixo importante nesse sentido é o Programa Mãe Paulistana, que garante benefícios como enxoval e vaga em creche para mulheres que realizam pelo menos sete consultas de pré-natal na rede municipal de saúde.
Segundo Cláudia Giaccio, a rede municipal já supera a meta mínima de consultas de pré-natal, uma vez que as gestantes com síndrome hipertensiva realizam acompanhamento conjunto nas UBSs e nos serviços de pré-natal de alto risco, ampliando o número total de consultas ao longo da gestação. “O acompanhamento próximo da gestante e a capacidade da rede em reconhecer precocemente qualquer alteração fazem toda a diferença para proteger a vida da mãe e do bebê”, conclui.
Trabalho de UBS começa com planejamento familiar
É justamente para evitar complicações durante a gestação e o parto, que a Assistência Médica Ambulatorial (AMA)/UBS Integrada Jardim Castro Alves, na zona sul de São Paulo, desenvolve um amplo trabalho de acompanhamento e cuidado contínuo às gestantes do território. “Hoje atendemos 202 gestantes, mas já chegamos a ter 560”, relata Caroline Cardoso, gerente da unidade, localizada em uma região com cerca de 70 mil habitantes.
Segundo Caroline, um dos primeiros passos foi fortalecer as ações de planejamento familiar, especialmente por meio da ampliação do acesso a métodos contraceptivos de longa duração, como DIU e implante hormonal. Apenas em 2025, a unidade realizou 86 implantes hormonais em mulheres de 13 a 21 anos e outros 178 em mulheres acima de 21 anos.
Atualmente, todas as gestantes acompanhadas pela unidade estão inseridas no programa Mãe Paulistana. A UBS conta com uma sala exclusiva e uma equipe dedicada ao atendimento pré-natal, formada por dois funcionários administrativos, dois auxiliares de enfermagem e uma enfermeira, além de coleta exclusiva de exames.
“Quando o teste de gravidez dá positivo, já realizamos os primeiros exames, agendamos a primeira consulta e também convocamos o parceiro para o pré-natal do homem”, explica o médico responsável técnico da unidade, Vinicius Fukuda.
Como a unidade funciona em modelo misto, reunindo sete equipes de Estratégia Saúde da Família, oito territórios de Atenção Primária e uma AMA voltada para urgências e emergências de baixa e média complexidade, o objetivo é garantir assistência integral às gestantes. Se uma paciente falta à consulta, um agente comunitário de saúde (ACS) vai até sua residência para reforçar a importância do acompanhamento. Já as mulheres com fatores de risco, como obesidade, recebem suporte da equipe multiprofissional, que inclui nutricionista, psicóloga, farmacêutica, educador físico e outros profissionais.
A integração entre as equipes também permite monitoramento contínuo de exames e possíveis alterações clínicas. Exames de urina alterados, por exemplo, são avaliados conjuntamente pelo médico e pela farmacêutica, buscando evitar que a gestante chegue ao final da gravidez com infecções que possam representar riscos durante o parto.
Renata Nunes Rodrigues, 25 anos, grávida de 24 semanas de seu primeiro filho, elogia o acolhimento recebido na UBS. “Eles nos acolhem da melhor maneira possível e, quando esqueço algum exame, mandam mensagem lembrando. Me sinto muito bem assistida”, relata.
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