Secretaria Municipal da Saúde
Cuidar até o fim: na saúde municipal, capacitação de equipes e criação de grupos de apoio fortalecem o acolhimento no luto

Dinâmica que aconteceu na roda de conversa sobre o luto na UBS Jardim Colombo (Acervo Ascom)
O luto é uma reposta natural e emocional a uma perda significativa, de alguém, de um relacionamento ou mesmo projeto de vida. E, embora doloroso, é um processo necessário para que a pessoa ressignifique o sofrimento e siga em frente. Dos profissionais de saúde que acompanham esse processo, exige preparo, escuta e sensibilidade. Pensando nisso, a Secretaria Municipal da Saúde (SMS), por meio do Programa Melhor em Casa, da Supervisão Técnica da Saúde Penha, realizou no início de novembro uma capacitação com cuidadores e a Equipes Multiprofissionais de Atenção Domiciliar (Emads), voltada ao tema da finitude e luto.
O objetivo foi fortalecer o acolhimento oferecido a pacientes que necessitam de cuidados paliativos e seus familiares. O treinamento integra as ações da SMS voltadas ao cuidado integral e humanizado, ampliando o olhar das equipes para além do tratamento clínico. A proposta é que médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais e demais profissionais de saúde estejam ainda mais preparados para apoiar as famílias desde o diagnóstico até o enfrentamento da perda.
Na capacitação, o psicólogo Roberto Ramos abordou as fases do luto e a importância do acolhimento às famílias no período pós-óbito. “O luto não significa esquecer o ente querido, mas sim ressignificar a dor. A ideia é que a equipe multiprofissional acolha o sofrimento das pessoas e ajude a família a passar por esse processo, de forma que aquela dor aguda e avassaladora do início se transforme em uma presença internalizada”, explicou.
Para quem já passou por essa experiência, o impacto desse cuidado é profundo. A farmacêutica Sílvia Patrício Soares, de 45 anos, conta que o atendimento recebido pela equipe da Emad fez toda a diferença quando o pai, de 96 anos, enfrentou o fim da vida após uma série de AVCs isquêmicos, em julho deste ano. “Nós estamos bem agora e lidando com a morte do meu pai com tranquilidade porque recebemos um tratamento humanizado, com todo o suporte da Emad”, relata Sílvia.
A farmacêutica conheceu o serviço em 2022, quando o pai teve Covid-19 e, em função das comorbidades, a família decidiu optar pelos cuidados em casa. Desde então, o acompanhamento foi constante e sensível. “Eles deram toda a assistência e cuidaram de tudo. Quando meu pai faleceu, orientaram sobre todas as situações que iríamos enfrentar; foi um trabalho impecável, humano e respeitoso”, diz, lembrando que no último período da vida do pai a equipe esteve presente duas vezes ao dia, garantindo conforto e dignidade do paciente até o fim. “Eles explicaram o processo da doença e nos orientaram emocionalmente. Ofereceram apoio de psicóloga, enfermeira e assistente social para a nossa família. Isso fez com que a gente encarasse a morte de uma forma mais serena.”
Cuidados Paliativos nas UBSs e na atenção domiciliar
As Unidades Básicas de Saúde (UBSs) realizam a identificação precoce de pacientes que necessitam de cuidados paliativos, oferecendo acompanhamento contínuo e humanizado por meio de um Plano de Cuidados. Desde o diagnóstico, a equipe estabelece diálogo com o paciente e sua família, desmistificando os cuidados paliativos e mostrando que se trata de um cuidado integrado ao tratamento, voltado ao conforto, à dignidade e à qualidade de vida.
Já o Programa Melhor em Casa desempenha papel estratégico em caso de necessidades mais complexas de cuidados. Com 63 equipes de Emad e 20 equipes de apoio (Emaps), o serviço realiza visitas regulares, garantindo cuidado contínuo e plenamente integrado à rede, especialmente para casos prioritários e exclusivos de cuidados paliativos.
Atualmente, cinco mil pacientes recebem acompanhamento e 60% deles necessitam de cuidados paliativos. Entre os atendidos, 65% são idosos, em sua maioria mulheres.
Grupos de apoio na Atenção Básica
A coordenadora do Programa Melhor em Casa, Karina Dib, reforça que “faz parte dos eixos do cuidado paliativo trabalhar o luto. A equipe precisa entender como foi a experiência de outras perdas naquela família e, por meio da escuta empática, trazer a segurança de um atendimento humanizado para aquele lar”.
Além do atendimento domiciliar, algumas UBSs da capital oferecem grupos de apoio ao luto, voltados a familiares e cuidadores que perderam entes queridos. Esses espaços promovem rodas de conversa e acompanhamento psicológico, ajudando as pessoas a elaborarem suas perdas e reconstruírem a rotina após o falecimento. Um desses espaços é o Grupo Experiências, da UBS Jardim Colombo, coordenado pela psicóloga Pamella Becegati. Criado em setembro deste ano, ele se reúne às segundas-feiras e atende em média de seis a oito pessoas, com idades entre 20 e 60 anos.
“O objetivo é acolher e oferecer um espaço terapêutico voltado à expressão e à ressignificação dessa perda”, explica Becegati. Segundo ela, o foco está em permitir que os participantes compartilhem suas vivências e construam novas formas de se relacionar com a ausência. O grupo busca o fortalecimento de vínculos, a integração social e o suporte emocional no processo de luto.
As sessões abordam temas como o significado do luto, a história de perda, os sentimentos que emergem nesse período, as mudanças de vida e os rituais de despedida. Para auxiliar na elaboração, são utilizadas técnicas como rodas de conversa, escuta ativa, atividades com arte, escrita, música e colagem, além de meditações guiadas, cartas simbólicas e diários de luto. Cada encontro reforça o acolhimento e a compreensão de que o tempo de elaborar a perda é individual.
Para a arquiteta Massumi Hirota Tumkus, 65, a ajuda profissional foi fundamental para compreender e ressignificar a morte do marido, em 2007. “Todo mundo me julgava por não ter conseguido superar a morte dele, que aconteceu há 18 anos. Mas quando ele morreu, eu não tive tempo para elaborar o luto. Eu tinha dois filhos adolescentes e uma mãe com Alzheimer para cuidar. Agora, com os filhos crescidos e sem os parentes mais próximos, eu entendi que finalmente precisava cuidar de mim.”
De acordo com Becegati, o objetivo do grupo é lembrar que a fala é um dos instrumentos mais potentes na elaboração da perda. “Precisamos acolher os sentimentos que vêm em todo esse processo e compreender que o momento do luto não é só sobre a morte, mas também sobre a vida: a vida de quem fica.”
Entre os participantes do grupo está Wellington Barreto dos Santos, 25, que carrega uma história de perda atravessada pela culpa. Em 2021, ele perdeu a tia, que havia lhe ligado passando mal. Naquele dia, ele não a levou ao hospital porque precisava acordar cedo para trabalhar. “Quando recebi a notícia da morte dela, fiquei muito mal”, conta. Depois, passou pela morte de um amigo de infância. Desde então, sofre com ataques de ansiedade.
O grupo o ajudou a desenvolver técnicas para lidar com as crises e, principalmente, a compreender que não estava sozinho. “Ouvindo os relatos e experiências dos outros, eu comecei a compreender melhor meus sentimentos. É bom procurar ajuda profissional. Graças ao grupo, eu estou voltando a ser o que eu era e a recuperar a alegria que eu sempre tive.”
Com ações como a capacitação dos profissionais de saúde sobre finitude e a ampliação dos grupos de apoio na Atenção Básica, a SMS reafirma o compromisso com um cuidado integral e humanizado, que acolhe não apenas a dimensão física, mas também o afeto e o vínculo. A população pode procurar a UBS mais próxima por meio da plataforma Busca Saúde: https://buscasaude.prefeitura.sp.gov.br/
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