Secretaria Municipal da Saúde
Projeto do Consultório na Rua com mulheres trans ganha prêmio estadual

Projeto realizado com mulheres trans pela equipe do Consultório na Rua foi premiada no Cosems/SP (Acervo/Ascom)
O projeto “Serei A do asfalto com mais de 35 anos. Um bom par entre longevidade trans e o Consultório na Rua” foi um dos 20 vencedores do Prêmio David Capistrano no 39º Congresso de Secretários Municipais de Saúde do Estado de São Paulo (Cosems/SP), realizado no mês de abril em Santos, que teve como tema o tema “O SUS e o EnvelheSer: estratégia para uma longevidade digna e com equidade.”
Com mais de 2.700 trabalhos inscritos, o prêmio é o reconhecimento máximo concedido às práticas que se destacam pela inovação, relevância e resultados na saúde pública no Estado de São Paulo.
Desenvolvido desde 2023 na região de Pinheiros pela equipe Consultório na Rua (eCR) do Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, o projeto é focado em mulheres trans e travestis consideradas idosas, já que a expectativa de vida dessas pessoas gira em torno de 35 anos no Brasil, de acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Isso corresponde à metade da expectativa de vida da população brasileira que é de 76,6 anos segundo o censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
“A vida das mulheres trans é permeada por inúmeras barreiras por conta das violências estruturais e exclusão social. Muitas são expulsas de casa, têm os vínculos familiares rompidos e vão viver nas ruas. E a partir daí as vulnerabilidades se sobrepõem na falta de acesso à alimentação, sono, moradia, emprego, impactando diretamente a saúde. Dessa forma, o envelhecimento com dignidade é uma forma de resistência”, diz o enfermeiro Gabriel Bajadares da Silva.
Aliás, o nome do projeto faz analogia à canção “Serei A”, de autoria da artista trans Linn da Quebrada, cujos versos “Mas não se esqueça / Levante a cabeça / Aconteça o que aconteça / Continue a navegar” traduzem a resistência de mulheres trans em ambientes hostis, tanto quanto a figura marinha da sereia inserida em um ambiente hostil como o asfalto da cidade.
Visibilidade
A iniciativa do projeto surgiu a partir de reuniões de matriciamento, uma metodologia de trabalho colaborativo as eCRs e a Unidade de Referência à Saúde do Idoso (Ursi) Geraldo de Paula Souza, que identificaram as demandas dessa população.
“A partir da escuta das mulheres trans em situação de rua e de vulnerabilidade, vivendo em acolhimento social, do nosso território, elaboramos estratégias de cuidados para melhorar a qualidade de vida e ampliar o acesso à saúde”, conta o médico Vinícius Ramos Bezerra de Morais, que integra a equipe Consultório na Rua. “Como o envelhecimento foi o tema do Cosems deste ano, a conquista do prêmio traz visibilidade a esta população, além de mostrar que os bons resultados do trabalho realizado pela saúde pública municipal de São Paulo podem inspirar e serem replicado em outros municípios.”
Adesão ao tratamento
Essa equipe do Consultório na Rua é composta por médico, enfermeiro, auxiliar de enfermagem e agente de saúde, que percorre as ruas com o objetivo de ampliar o acesso da pessoa em situação de rua à Rede de Atenção à Saúde. Eles realizam a abordagem e o cadastramento com escuta qualificada e formação de vínculo com essa população, acompanhamento em saúde com consultas, coleta de exames, tratamentos e administração de medicamentos para diversas doenças, orientações e assistência integral em todos os ciclos de vida.
“No caso das pacientes que vivem com HIV, a equipe possibilitou por meio do vínculo, acompanhamento e tratamento, reduzir e até zerar a carga viral dessas mulheres com o uso de antirretrovirais, e quando a carga viral fica indetectável, por pelo menos seis meses, não ocorre mais transmissão do vírus”, explica o enfermeiro Gabriel, lembrando também que, quando o vírus não é controlado, essas pessoas podem ficar mais suscetíveis ao aparecimento de doenças oportunistas como pneumonia, meningite e tuberculose, uma vez que a Aids é uma doença que afeta o sistema imunológico.
Com a tuberculose, o sucesso do tratamento deve-se à estratégia chamada Tratamento Diretamente Observado (TDO), recomendada pelo Ministério da Saúde, em que o profissional da saúde observa a paciente ingerindo os medicamentos. O objetivo é garantir a adesão ao tratamento, aumentar a taxa de cura e evitar a resistência medicamentosa. Dependendo da gravidade e complexidade de cada caso, as pessoas podem ainda ser encaminhadas para diferentes serviços e níveis de atenção da Rede de Atenção à Saúde (RAS), promovendo acompanhamento adequado e integral ao tratamento.
Vínculos
O enfermeiro Gabriel explica que a metodologia adotada é o cuidado centrado na paciente, que faz parte de todo o processo por meio de suas escolhas. Para tanto, é essencial a construção de vínculos baseados no acolhimento e na escuta. “Afinal, cada pessoa tem sua própria história e suas razões para estar em situação de rua”, diz.
P.O.P.C., de 41 anos, conta que tem uma relação de afeto com a eCR. “Eles me ajudam muito. São pessoas maravilhosas. Pode estar sol ou chuva, que eles me visitam para tomar o remédio”, brinca.
Ela conta que veio de Belém, no Pará, com 17 anos. Sua história se confunde com as de outras mulheres trans atendidas pelo projeto, que fugiram dos conflitos familiares e vieram para São Paulo em busca do sonho de uma vida melhor.
Recomeços
O trabalho da equipe do Consultório na Rua vai além dos cuidados à saúde, na medida em que também promove a reintegração social e resgate da cidadania. “É preciso conferir autonomia, direitos e oportunidades para promover a saída qualificada da rua, como o retorno aos estudos”, diz o médico Vinícius.
Para esse resgate, a Prefeitura de São Paulo desenvolve o Programa Transcidadania, iniciativa vinculada ao Programa Operação Trabalho (POT), que promove a reinserção social e cidadania de travestis, mulheres transexuais e homens trans em situação de vulnerabilidade, por meio de bolsa-auxílio, acesso à escolaridade (ensino fundamental/médio e técnico), qualificação profissional e apoio jurídico/psicológico.
A equipe do eCR também auxilia na regularização documental, inclusive com a inclusão do nome social na emissão da Carteira de Identidade Nacional (CIN) e Cadastro de Pessoas Físicas (CPF), possibilitando acesso a benefícios socioassistenciais como o Bolsa Família e Cadastro Único (CadÚnico), garantindo renda mínima e redução da insegurança alimentar, além da emissão de Bilhete Único.
P.O.P.C. conta que a sua vida mudou depois do atendimento pelo eCR e que ainda tem muitos sonhos. “A gente dá uns tropeços, né? Mas hoje tomo os remédios direitinho, vou às consultas. Eu não tinha RG nem CPF, agora tenho os documentos com meu nome, e quero concluir meus estudos, visitar meus pais no Pará porque nunca mais voltei para lá nesses 22 anos. Nós só temos um pai e uma mãe”, diz.
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