Secretaria Municipal da Saúde

Quarta-feira, 10 de Setembro de 2025 | Horário: 11:00
Compartilhe:

Setembro Verde: doação de órgãos salva vidas e mobiliza a rede municipal

Hospitais da capital capacitam equipes para sensibilizar famílias e melhorar o sistema de captação

Seu “sim” pode salvar vidas: Setembro Verde é o mês de conscientização sobre a doação de órgãos e tecidos. Em São Paulo, as equipes dos hospitais municipais trabalham diariamente para identificar potenciais doadores e notificar as Organizações de Procura de Órgãos e Tecidos (OPOs), responsáveis pela mobilização das famílias e captação dos órgãos. E o resultado é expressivo: nos últimos quatro anos, a atuação do Hospital Municipal Dr. Fernando Mauro Pires da Rocha (Campo Limpo), por exemplo, resultou na captação de 835 órgãos.

No entanto, o desafio ainda é grande: no Brasil, a autorização para a doação pós-morte é da família, e a recusa permanece como um dos principais entraves. De acordo com o Ministério da Saúde, atualmente, no Brasil, 46.836 pessoas aguardam na fila de transplantes. Dessas, 43.458 esperam por um rim. De 2023 até agosto de 2025, foram realizados 24.954 transplantes no país.

Os hospitais municipais investem em medidas para fortalecer o sistema de captação, como treinamento e sensibilização dos funcionários para o tema, a adoção do protocolo de morte encefálica para todos os pacientes com potencial de doação de órgãos (primeiro passo necessário para viabilizar a captação), além de um trabalho contínuo junto aos pacientes das Unidades de Terapia Intensiva (UTI) para ressignificar o luto.

Experiências na rede municipal de SP
Para viabilizar a captação de órgãos, os hospitais possuem em sua estrutura as comissões intra-hospitalares de doação de órgãos e tecidos para transplantes (CIHDOTT). Lucas Andrade é enfermeiro da CIHDOTT do Hospital Campo Limpo, referência estadual em notificação de potenciais doadores e captação de órgãos. Ele conta que existe um empenho diário da comissão de acompanhar os processos e garantir agilidade da equipe assistencial.

“Nós criamos uma ampla comissão: somos 40 membros, espalhados em todos os plantões e em todos os setores com potenciais doadores de órgãos. Isso facilita a busca ativa e acompanhamento dos casos. Além disso, nós já desenvolvemos uma cultura de doação de órgãos dentro do hospital, o que potencializa todo o trabalho, que vai desde da condução dos protocolos de morte encefálica até o acolhimento das famílias”, explica. E o esforço resulta em reconhecimento: O hospital já foi, por diversas vezes, destaque no Encontro Estadual das CIHDOTTs de São Paulo.

O resultado do trabalho da equipe foi a captação de 835 órgãos nos últimos quatro anos.  Como exemplo, em 2023 o hospital notificou 100 casos de morte encefálica, e 44 delas resultaram em doações efetivas, possibilitando a captação de 79 rins, 29 fígados, dois corações, cinco pâncreas, quatro pulmões e pele de dois doadores. Em relação aos 46 restantes, os motivos para a não doação foram contraindicação médica, ausência de representante legal, evolução para parada cardiorrespiratória antes da entrevista com familiares ou ao final do protocolo, além da recusa familiar. Em 2024, por sua vez, foram 96 notificações, com 42 doações efetivas (43,7%), resultando na captação de 76 rins, 23 fígados, seis corações, cinco pâncreas e quatro pulmões, além de tendão, osso, músculo e pele de um doador. No parcial de 2025 do hospital já foram captados 17 fígados, 42 rins, 62 córneas, quatro corações, quatro pâncreas, dois pulmões, uma bexiga, duas peles, um osso e um vaso.

Na zona norte, o Hospital Brasilândia viabilizou a primeira captação em dezembro de 2023, quando também inaugurou um ritual, o chamado “corredor de palmas”, em que a equipe se posiciona ao redor da maca do doador e aplaude o ato de solidariedade da família, caso ela aceite o gesto de gratidão. Desde então, entre 2023 e 2025, a unidade realizou 15 captações, sendo 13 fígados, 20 rins, 18 córneas e um coração, destinados a pacientes da Lista Única Nacional para transplantes, controlada pelo Sistema Nacional de Transplantes (SNT).

Para Luciana Bonilha Carvalho, supervisora de enfermagem da Terapia Intensiva Adulto e membro da CIHDOTT do hospital, “O aumento das captações autorizadas com o decorrer dos anos mostra um trabalho de qualidade com o paciente potencial doador, além da sensibilidade de familiares que autorizam a captação,”. Ela conta ainda que em uma das primeiras captações que correram na unidade, os familiares fizeram questão da doação de órgãos, visando perpetuar a existência do paciente.

Outra frente que amplia a possibilidade de doações é a captação domiciliar de córneas realizada pelo programa Melhor em Casa, ligado ao Hospital Municipal Vereador José Storopolli (Vila Maria), iniciativa pioneira que permite cumprir a vontade do doador e de sua família também no ambiente domiciliar, com avaliação técnica e apoio multiprofissional.

Transplantes no Brasil
O Brasil é referência mundial na área de transplantes e possui o maior sistema público de transplantes do mundo. Em números absolutos, o país é o 2º maior transplantador do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. A rede pública de saúde fornece aos pacientes assistência integral e gratuita, incluindo exames preparatórios, cirurgia, acompanhamento e medicamentos pós-transplante.

O Sistema Único de Saúde (SUS) financia a ampla maioria dos procedimentos e coordena, por meio do Sistema Nacional de Transplantes, uma fila única, nacional e transparente. A distribuição de órgãos e tecidos segue critérios técnicos como compatibilidade sanguínea e tecidual, gravidade do quadro, tempo de espera e idade (com prioridade para crianças em situações específicas).

Em São Paulo, as OPOs (HC/USP, Santa Casa, Dante Pazzanese e Hospital São Paulo/EPM) recebem as notificações dos hospitais, validam a elegibilidade clínica dos doadores, avaliam a viabilidade dos órgãos e acionam as equipes transplantadoras, garantindo isonomia e segurança a todo o processo.

Seu “sim” pode salvar vidas
A confirmação de morte encefálica é feita por médicos e exames específicos. A partir desse diagnóstico, a decisão sobre a doação é familiar. Manifestar em vida o desejo de doar e compartilhar essa vontade com as pessoas próximas multiplica as chances de quem aguarda por um órgão ou tecido.

collections
Galeria de imagens