Secretaria Municipal da Saúde

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Quarta-feira, 15 de Outubro de 2025 | Horário: 13:11
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UBS Real Parque tem equipe dedicada aos indígenas Pankararu

Unidade de saúde na zona sul de São Paulo é referência nacional ao integrar práticas tradicionais e medicina de família no cuidado a mais de mil indígenas
Seis pessoas posam sorrindo em um ambiente interno, diante de um grande painel que mostra imagens de pessoas indígenas usando cocares e vestes tradicionais. No grupo, há três mulheres vestindo jalecos brancos, duas mulheres com coletes azuis da Prefeitura de São Paulo e um homem com jaqueta cinza. Todas e todos olham para a câmera e parecem integrados em um clima de trabalho em equipe e acolhimento.

Toda sexta-feira é o dia de acesso para atendimento e agendamento de consulta dos indígenas na UBS Real Parque, na zona sul de São Paulo. Um atendimento que vai além da consulta, com a equipe de saúde da família, formada por médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e agentes indígenas de saúde, reunida para atender principalmente o povo Pankararu.

Atualmente, são mais de 1.200 indígenas não aldeados cadastrados, dos quais aproximadamente 600 vivem no território. O número varia devido à característica migratória da comunidade, que é originária do sertão de Pernambuco. Ao todo, a etnia Pankararu possui quase 4 mil pessoas no país, incluindo os residentes em São Paulo.

O médico de família Luiz Felipe Ribeiro Cordoni, 34 anos, completa em outubro três anos na UBS. Ele jamais esquece seu primeiro dia de trabalho: “Recebi uma avó com a neta no colo. A criança teve três paradas cardíacas, com episódio convulsivo, e hoje faz acompanhamento regular.”

Cordoni admite que, antes de assumir a equipe, não tinha experiência em saúde indígena. “Achei que seria um desafio com muitas especificidades, mas hoje vejo que não é tanto assim, eles usam chás, garrafadas, cachimbos e rezas, mas também vêm, fazem exames, tomam medicações. Quando aceitam o tratamento, são muito disciplinados.”

Segundo o médico, a resistência inicial a alguns tratamentos é superada com diálogo, clareza e respeito. “Não usamos jargão, falamos português simples e até criamos estratégias: adesivos coloridos para identificar medicações, caixinhas separadas pela farmácia, visitas domiciliares para atualizar vacinas.” Ele lembra que, durante a pandemia, a adesão dos indígenas à vacinação foi alta e que, até hoje, a equipe acompanha atrasos por meio de “espelhos de vacinas”.

Cordoni também destaca o valor do conhecimento fitoterápico dos Pankararu. “Já pensamos em oficinas para compartilhar esses saberes”, explica.

Cuidado ampliado e diferenciado
O gerente da UBS, Leonardo Monteiro Teixeira, fisioterapeuta e gestor há nove anos, reforça o caráter de referência da unidade. “Temos 681 indígenas em área urbana cadastrados, correspondendo a 186 famílias; com os Pankararu aldeados no Nordeste, esse número sobe para 1.250.”

Leonardo ressalta que a unidade recebe outras equipes de saúde de cidades como Santo André e Guarulhos para compartilhamento dos saberes. “Além do atendimento clínico, a UBS promove grupos de acupuntura, está com projeto de implantação de uma casa de ervas e abre espaço para eventos culturais como o Toré. Também temos recepcionistas, agentes comunitários e jovens aprendizes Pankararu trabalhando conosco, fortalecendo o vínculo comunitário.”

A enfermeira Catiane Alves de Moura acrescenta que o atendimento, ali, apesar de ser em área urbana, difere daquele encontrado em um modelo tradicional de UBS. “Nossa população indígena pode iniciar o tratamento conosco e concluir na aldeia em Pernambuco, esse cuidado não é numa rede única; mas, mesmo quando estão ausentes do território, tentamos manter contato.”

Ela explica que, nas aldeias, há polos-base e unidades próprias de saúde indígena, organizados pelo sistema federal. Já na UBS Real Parque, a equipe municipal atua com especificidades, como o acolhimento exclusivo às sextas-feiras. “Temos muitos idosos, pacientes em trânsito e precisamos olhar para costumes que, em outros contextos, seriam vistos de forma diferente, como o uso do cachimbo, que aqui é compreendido como parte do cuidado tradicional.”

Catiane lembra que todos os profissionais da unidade passaram por formações específicas sobre saúde indígena, inclusive com grupos de estudo sobre os Pankararu em contexto urbano. “Esse aprendizado permanente é essencial, mas nada substitui a presença das AIS, que trazem a sabedoria viva da comunidade.”

Sabedoria e espiritualidade como ponte
Prestes a completar 20 anos de atuação na UBS Real Parque, a AIS Maria Lídia da Silva, a tia Lídia, nasceu na aldeia em Brejo dos Padres e chegou a São Paulo há três décadas. Ela tem 58 anos, quatro filhos, oito netos e dois bisnetos. Antes de ingressar na saúde, trabalhou como auxiliar de limpeza e aceitou o desafio de ser AIS por seis meses, que já se transformaram em quase 20 anos de SUS.

Ela conta que, ao longo do tempo, a resistência à assistência médica por parte do seu povo em São Paulo diminuiu. “No início, eles queriam só saber dos chás, mas hoje não têm tanta resistência. Trabalhei muito para isso e me sinto importante nessa ponte”, diz ela, que antes de aceitar o trabalho consultou a comunidade, e não abandonou suas tradições: é rezadeira.

Já a “caçula” da equipe, Thaís de Sá Costa, 33 anos, nasceu em São Paulo, filha de pais Pankararu nascidos na aldeia. Casada e mãe de dois filhos, ela começou cobrindo uma licença maternidade e hoje já soma quase dez anos como AIS. Para ela, o trabalho é motivo de orgulho. “Eu me considero um elo muito importante. A gente entra na casa das pessoas, leva informações que às vezes não chegariam ao médico de outra forma. O SUS é acolhedor e a gente faz muita diferença. Me orgulho de ser essa ponte com meu povo e ajudar a tia Lídia, que abriu esse caminho.”

O autônomo Manoel Juscema Firmino da Silva, 59 anos, Pankararu nascido em Pernambuco, é hipertenso e frequenta a UBS desde os 35 anos. Ele reforça a importância do vínculo entre unidade de saúde e comunidade. “Lá na aldeia a gente não sabia de nada disso, não sabia de hipertensão e diabetes, mas aqui a gente aprende”, conta o indígena, que entre tios e primos soma mais de 20 familiares em São Paulo, todos frequentadores da UBS Real Parque. Ele admite que não segue tão bem a dieta, mas nunca falta às consultas e é acompanhado de perto por Thaís.

Raízes no Nordeste, legado em São Paulo
Os Pankararu migraram para São Paulo na década de 1940, muitos empregados na construção civil, inclusive na obra do estádio do Morumbi. Hoje, mais de dois mil vivem na capital, organizados pela Associação Indígena SOS Comunidade Indígena Pankararu, também sediada no bairro Real Parque.

Originários da região entre a cachoeira de Paulo Afonso e a embocadura do rio Pajeú (PE), os Pankararu sofreram deslocamentos forçados na colonização, mas preservaram sua espiritualidade e práticas como a coleta de ervas, o artesanato e o ritual do Toré, que já foi realizado na própria UBS, simbolizando a integração cultural.

A cultura desta etnia é marcada pelo ritual do Toré, pelo culto aos Encantados e pela coleta de ervas medicinais. Na UBS Real Parque, essa tradição convive com a medicina de família em um intercâmbio que se tornou referência para o SUS no país.

 

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