Secretaria Municipal da Saúde

Sábado, 25 de Julho de 2026 | Horário: 11:00
Compartilhe:

Da enfermagem no Haiti ao acolhimento de imigrantes na capital: a trajetória de Junia Pierre na rede municipal de Saúde

No Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha, conheça a história da agente comunitária de saúde que atua na UBS Parque Novo Mundo II
A imagem mostra uma mulher em pé, posando para um retrato em estúdio, com expressão serena e um leve sorriso.  Ela veste um blazer branco sobre um vestido ou conjunto na cor verde-petróleo e segura a lapela do blazer com uma das mãos, enquanto a outra permanece relaxada ao lado do corpo. Seus cabelos são lisos, na altura dos ombros, repartidos de lado, e ela está voltada para a câmera.  O fundo é cinza-escuro, com iluminação suave que cria sombras discretas, destacando a figura da retratada. A composição é simples e elegante, típica de um retrato profissional ou institucional, transmitindo uma imagem de confiança, acolhimento e profissionalismo.

"Vai, Junia, você consegue." 

É essa a frase que a agente comunitária de saúde (ACS) Junia Pierre traz como estímulo para a reconstrução de sua vida no Brasil. Aos 37 anos, essa mulher negra, haitiana e enfermeira carrega uma trajetória que representa a importância da diversidade no SUS. 

Quando um imigrante haitiano chega à UBS Parque Novo Mundo II, na região da Vila Maria, zona norte da capital paulista, sem compreender uma única palavra em português, Junia Pierre costuma ser a primeira pessoa capaz de quebrar o silêncio. Em poucos minutos, o atendimento ganha outro ritmo. O crioulo haitiano, o francês, o português e um pouco de inglês permitem que informações essenciais sobre saúde sejam compreendidas. Mais do que traduzir palavras, a agente comunitária de saúde traduz o acolhimento. Há oito anos ela mesma viveu essa realidade.

“Lá no meu país, eu estudei, eu fiz faculdade de enfermagem. Eu estava trabalhando lá também. Passei quatro anos e alguns meses trabalhando no hospital internacional. Trabalhava com haitianos e americanos também. Vim para o Brasil porque meu marido já estava aqui. Mas quando eu cheguei aqui, eu tinha muita dificuldade, sabe? Eu não falava nada de português, não entendia nada. Era muito difícil para mim. Eu tinha dificuldade para achar um trabalho bom. Sabe, quando a gente não fala, fica mais complicado. Eu trabalhava como cuidadora de idosa, cuidava, limpava, dava comida e as medicações dela, e trabalhava como faxineira também. Fiz bico, porque eu não quis ficar sem fazer nada”, relembra Junia, que também é mãe de duas crianças que nasceram em solo brasileiro: Luiz Fernando, que tem 7 anos e, Luísa Fernanda, uma bebê de seis meses.

Foi o marido Jude, o ex-bancário, que agora também atua na Cáritas no apoio aos imigrantes e refugiados, quem a avisou sobre o processo seletivo na região onde moram para agente comunitário de saúde.  Ela relutou, disse que não iria por não estar preparada, por não dominar o português e também por medo de não conseguir passar. 

“Cada vez que eu estou contando minha história, eu lembro essa palavra que ele falou para mim: ‘Vai, Junia, você consegue’.”

E ela conseguiu. Há dois anos atua principalmente com os imigrantes que moram no território atendido pela UBS Parque Novo Mundo II. “Na UBS, eu ajudo muito com essas pessoas. Tem gente que chega lá sem conseguir entender nada, mas graças a Deus, eu consigo conversar com eles, porque eu falo eu falo quatro línguas”, diz, com um misto de doçura e orgulho.

No Haiti, Junia morava na cidade portuária de Les Cayes (conhecida como Okai no crioulo haitiano) e se formou em enfermagem geral na Faculté de Sciences Infirmières (FSI) faz parte da rede educacional da Université Lumière (ULUM). Como boa aluna, não demorou a conseguir uma vaga no hospital da universidade, o L'Hôpital Cité Lumière, após se formar. 

“Lá tinha escala todo mês. Eu trabalhava uma semana na emergência, na outra semana na maternidade, uma semana na pediatria, uma semana no acolhimento, e assim por diante”, revela.

O caminho iniciado no Haiti ainda não terminou. Enquanto segue acolhendo famílias imigrantes na UBS Parque Novo Mundo II, ela também se prepara para validar no Brasil o diploma de enfermagem conquistado em seu país de origem. 

Entre o sonho de voltar ao hospital e a rotina como agente comunitária de saúde, ela continua fazendo aquilo que aprendeu desde o início da profissão: cuidar das pessoas. E, agora, ajuda outras mulheres e famílias a encontrarem, na rede municipal do SUS, o mesmo acolhimento que um dia fez toda a diferença para ela.

Equidade como princípio
O Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, celebrado em 25 de julho, reforça a importância do enfrentamento ao racismo e às desigualdades que impactam diretamente a saúde das mulheres negras. Na cidade de São Paulo, a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) mantém, desde 2003, a Área Técnica da Saúde da População Negra, responsável pela implementação de ações voltadas à redução das iniquidades raciais e ao fortalecimento da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra.

Além de ser mais dependente dos serviços públicos, a população negra também sofre com condições específicas de saúde, como a doença falciforme, de origem genética e hereditária que pode provocar uma série de complicações, de anemia a dores crônicas e comprometimento de órgãos internos.
Para romper a barreira da linguagem e garantir o acesso à informação, uma cartilha com orientações sobre o pré-natal traduzida para o idioma crioulo haitiano foi desenvolvida pela Área Técnica da Saúde do Migrante da SMS para o Programa Mãe Paulistana. A iniciativa, de 2024, nasceu nas UBSs Recanto dos Humildes e Parque Anhanguera, também localizadas na zona norte da capital e se expandiu por toda a rede. 
 

collections
Galeria de imagens