Quinta-feira, 3 de Setembro de 2026 | Horário: 11:00
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Do sonho do futebol ao cuidado integral

O profissional de Educação Física João André encontra na rede municipal de saúde a possibilidade de transformar vidas ao colocar corpos em movimento
A imagem mostra uma atividade coletiva realizada em um espaço amplo, com paredes pintadas de laranja e azul. No chão, várias pessoas estão deitadas sobre colchonetes ou toalhas, realizando exercícios físicos orientados por um profissional que está à frente do grupo. Os participantes, em sua maioria adultos e idosos, fazem movimentos com as pernas e utilizam pequenas bolas coloridas posicionadas entre os joelhos ou sobre o corpo. O instrutor, vestido com roupa esportiva, demonstra um dos exercícios com as mãos. O ambiente conta ainda com ventiladores, corrimão e uma pequena área elevada, indicando um espaço adaptado para atividades físicas. A cena transmite a ideia de uma prática coletiva voltada ao movimento, à convivência e à promoção da saúde.

Ainda no ensino médio, João André Lira Júnior descobriu que as aulas de Educação Física podiam ir muito além de jogar bola. Aluno de escola pública, encontrou em um professor da época a inspiração para escolher a profissão que seguiria anos depois. Contudo, a fonte de admiração não estava na disputa de futsal, vôlei ou basquete, ou na força física: o que chamou a atenção do adolescente foi a disposição do mestre em ampliar horizontes. 

Em 2011, João ingressou na faculdade de Educação Física Formado em 2014, imaginava naquele momento uma carreira bastante diferente daquela que acabaria construindo. “A princípio eu queria ser treinador de futebol”, revela o corintiano que, atrás do sonho, estagiou em uma escolinha do Atlético Paranaense, passou pelo Centro Olímpico, em Moema, e pelo Clube Banespa. Mas as oportunidades no futebol não apareceram como esperava e, aos poucos, outros caminhos começaram a se abrir.

Um deles veio por influência da mãe, que trabalhava em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) da Secretaria Municipal da Saúde, e insistia para que o filho buscasse essa área para trabalhar.  João tentou e conseguiu. Levava consigo a experiência adquirida em academias e também no trabalho em uma organização não governamental (ONG). “É uma boa tentativa, acho que vou me dar bem trabalhando na Atenção Primária. Acho que consigo contribuir com alguma coisa”, disse para si mesmo.

Desde 2018, João atua na rede municipal de saúde e hoje concentra seu trabalho na Unidade Básica de Saúde(UBS) Jardim Thomas, na região do Jardim São Luís, zona sul da capital. Sua rotina inclui, em média, quatro a cinco grupos por dia, além de atendimentos e da participação na Avaliação Multidimensional da Pessoa Idosa (Ampi-AB).

Pilates, treinamento funcional, caminhada, alongamento, mobilidade e práticas como Lian Gong estão entre as atividades desenvolvidas. Mas basta ouvi-lo falar sobre os participantes para perceber que, para ele, movimento é apenas uma parte do trabalho.

A maioria do público de seus grupos é formada por pessoas idosas e cerca de 90% a 95% são mulheres. Algumas moram sozinhas e muitas encontraram nas atividades oferecidas pela UBS não apenas uma oportunidade de cuidar do corpo, mas também um espaço de convivência.

João André se orgulha de ter participantes que o acompanham desde o início de sua atuação na região. “Eu sempre falo para o pessoal que, às vezes, o físico é o de menos, é o social e o mental que impactam aquela pessoa.” Por isso, entre um exercício e outro também cabem conversa, brincadeira e risada. E até uma bronca bem-humorada quando a turma se empolga mais com o papo do que com a atividade.

A permanência das participantes nos grupos também permite que João acompanhe histórias por anos. Ele observa mulheres que continuam ativas, preservando a independência e incorporando o movimento à rotina. Algumas, contam que estão com ele desde antes da pandemia.

Para o profissional, são resultados que nem sempre aparecem imediatamente no cotidiano de trabalho, mas se revelam na vida das pessoas. “A gente vê a evolução, a qualidade de vida que elas têm e fica feliz com o trabalho que está fazendo. Às vezes, no dia a dia, a gente não percebe, mas vê pelas outras pessoas que está fazendo diferença para alguém.”

O bairro como espaço de cuidado
Na região, João aprendeu também a enxergar possibilidades onde, à primeira vista, talvez não houvesse um espaço para atividade física: quadras, salões de igreja, associações e outros equipamentos do bairro entram nessa geografia construída pela equipe em forma de parceria. “A gente vê um espaço e pensa: ‘Dá para fazer alguma coisa aqui?’” 

Foi dessa disposição que surgiu uma experiência muito ativa em sua memória: o “CrossFit do SUS”, criado no contrafluxo de horário de um espaço que funcionava na região. Ali, ao longo de dois anos, João levou usuários para a prática de exercícios funcionais, e reforçou uma convicção: é possível adaptar a atividade física às pessoas e ao território. Hoje, alguns dos grupos reúnem dezenas de participantes. O de pilates, por exemplo, chega a receber cerca de 30 pessoas por dia, três vezes por semana. 

Movimento para independência
Na convivência com uma população que envelhece, João passou a enxergar também outra dimensão da Educação Física: ajudar a preservar a autonomia necessária para as tarefas mais simples da vida.

“Hoje, a pessoa idosa tem essa consciência de querer viver mais e melhor. Muitos moram sozinhos, então precisam dessa independência para fazer as atividades do dia a dia”, diz o educador. Por isso, o cuidado não termina no grupo. Quando um participante chega contando que está com dor no ombro e já não consegue realizar alguma atividade, por exemplo, estender roupa no varal, ele orienta a procurar a fisioterapia, sem abandonar a atividade física quando é possível continuar.

É um trabalho compartilhado com outros profissionais da unidade e que ajuda a mostrar aos usuários que o cuidado com a saúde pode acontecer muito antes de uma doença ou de uma perda importante de funcionalidade.

Mesmo feliz com o trabalho da saúde, João não abandonou o esporte de competição. Apenas encontrou outras formas de permanecer nele. Fez pós-graduação em gestão do esporte, tornou-se árbitro de futsal e trabalha também com organização de esporte universitário. “Consegui unir a saúde e o esporte ao meu dia a dia. Então, me sinto realizado.”

Se no passado, um professor mostrou a seus alunos que a prática da educação física não precisava ter um único objetivo, João, hoje, faz algo parecido e ensina que movimentar o corpo é mais do que cuidar da saúde. É recuperar a autoconfiança, preservar a independência e até encontrar companhia.

Rotina Ativa
Caminhada, exercícios, práticas corporais e outras atividades orientadas também fazem parte do cuidado oferecido na rede municipal de saúde. O Programa Rotina Ativa SP, lançado em abril deste ano pela SMS, incentiva a população a se movimentar mais, contribuindo, com as equipes das UBSs e outros equipamentos, para prevenir doenças, melhorar a qualidade de vida e incorporar hábitos mais saudáveis à rotina.

Para desenvolver esse trabalho, a rede municipal conta com mais de 270 profissionais de Educação Física, que atuam em todas as unidades, integrando as equipes multiprofissionais (eMulti). As ações ocorrem em diferentes espaços dos territórios, de acordo com as características e necessidades de cada região, aproximando a atividade física do dia a dia e mostrando que se movimentar também é uma forma de cuidar da saúde.

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