Secretaria Municipal da Saúde
Oferecer alimentação saudável cria bons hábitos e pode evitar a obesidade infantil

Crianças participam de atividade do grupo de nutrição da UBS Jardim da Conquista II, que utiliza estratégias lúdicas para incentivar a alimentação saudável (Acervo/Ascom)
Em 2025, um relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) apontou que, pela primeira vez, a obesidade supera a desnutrição globalmente entre crianças e adolescentes em idade escolar. Uma em cada dez crianças no mundo vive com obesidade, o que corresponde a 188 milhões de pessoas em fase de desenvolvimento. Segundo a pesquisa Alimentando o Lucro: Como os Ambientes Alimentares Estão Falhando com as Crianças, que coletou dados de 190 países, a prevalência de desnutrição entre crianças de 5 a 19 anos caiu de quase 13% para 9,2% desde 2000, enquanto os índices de obesidade aumentaram de 3% para 9,4%.
No Brasil, a obesidade já superava a desnutrição no início dos anos 2000. Em 2022, o índice chegou a 15%. E em 2025, o excesso de peso entre pessoas de 0 a 19 anos atingiu 33% no país, de acordo com o Panorama da Obesidade em Crianças e Adolescentes, que divulga dados oficiais do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan). O número indica que, a cada 100 crianças e adolescentes, 33 apresentam sobrepeso, obesidade ou obesidade grave, o que corresponde a 6.796.650 pessoas com excesso de peso.
O cenário mundial é marcado pela ampla exposição à propaganda de alimentos ultraprocessados, pelo alto consumo desses produtos e pela substituição das atividades físicas pelo uso excessivo de telas. Segundo dados do Sisvan, o perfil alimentar no Brasil confirma esses comportamentos.
Na primeira infância, o índice de aleitamento materno exclusivo é de 57% entre bebês de 0 a 6 meses. No entanto, entre crianças de 6 meses a 2 anos, o consumo de ultraprocessados chega a 33%. Dentro desse grupo, destacam-se bebidas adoçadas (20%), biscoitos recheados, doces e guloseimas (19%), macarrão instantâneo, salgadinhos de pacote e biscoitos salgados (17%), além de hambúrgueres e embutidos (10%).
O ápice do consumo de ultraprocessados ocorre entre crianças e adolescentes de 5 a 19 anos: 81% na faixa dos 5 a 9 anos e 79% entre 10 e 19 anos. As bebidas adoçadas lideram os maus hábitos alimentares, com consumo médio de 63,5%, seguidas por biscoitos recheados, doces e guloseimas, que ultrapassam 50% nessas faixas etárias. Outro fator de risco é o hábito de realizar refeições em frente à televisão ou a telas, comportamento presente em 49% das crianças de 2 a 4 anos. Os índices sobem para 58% entre 5 e 9 anos e chegam a 59% entre adolescentes de 10 a 19 anos.
Passos para uma alimentação saudável
Evitar oferecer alimentos ultraprocessados às crianças é um dos principais passos para promover uma alimentação saudável. Salgadinhos, biscoitos recheados e refrigerantes são pobres em nutrientes e ricos em sal, gordura, açúcar e aditivos químicos, como corantes, conservantes e adoçantes. O consumo frequente desses produtos está associado ao aumento do risco de desenvolver obesidade e outras doenças crônicas, como hipertensão, diabetes, cáries e até alguns tipos de câncer.
Foi justamente o diagnóstico de diabetes do filho mais velho, ainda na infância, que levou a vendedora Simone Vigilato, de 53 anos, a transformar completamente sua relação com a alimentação e a saúde. Mãe solo de quatro filhos — Júlio Cesar, de 30 anos, Gabrielle, de 28, Lucas, de 15, e Pedro, de 12 —, Simone conta que precisou reorganizar toda a dinâmica familiar. “Aqui em casa sou eu quem organiza a rotina, os cuidados, a alimentação, as consultas, as emoções, as crises, os horários e toda a dinâmica da casa. Quando o Júlio adquiriu diabetes há seis anos, aquilo mexeu muito comigo. Comecei a olhar mais profundamente para a alimentação dentro da minha casa e entender o impacto que ela tinha não só no corpo, mas também no emocional, na disposição, no bem-estar e até na convivência familiar”, relata.
Ela também aprendeu, na Igreja em que frequenta, sobre agricultura natural, respeito aos alimentos e a importância de consumir produtos sem agrotóxicos sempre que possível. “Isso começou a fazer muito sentido dentro da minha realidade. Não de forma radical ou perfeita, porque a vida real de uma mãe é corrida demais, mas, aos poucos, fui tentando trazer escolhas mais saudáveis para dentro de casa.”
Hoje, também diabética, Simone busca observar melhor os alimentos consumidos pela família, reduzir produtos industrializados e procurar apoio e orientação sempre que necessário. Nesse processo, percebeu que também precisava cuidar de si mesma. “Participei de todas as edições do Avança Saúde e sempre procuro aproveitar espaços de orientação, saúde e acolhimento. Acredito muito que informação e acesso transformam vidas”, afirma Simone, que tem a UBS Joaquim Rossini, na região sudeste da capital, como unidade de referência. É lá que ela e os filhos participam de grupos, rodas de conversa e atividades de prevenção, além de seguirem as orientações da equipe médica.
Na prática, a rotina alimentar da família mudou bastante. Simone reduziu o consumo de açúcar e passou a preparar receitas mais saudáveis. “Hoje compro pão integral, troco o pão por panqueca com farelo de aveia e tomamos café e suco sem açúcar. Se as crianças querem doce, restrinjo a quantidade. Antes eu comprava cinco pacotes de açúcar por mês. Hoje, um pacote é suficiente.” Ela também diminuiu o consumo de massas e eliminou embutidos da alimentação cotidiana. “Macarrão agora é integral e no máximo três vezes por mês. Não compro mais presunto, mortadela nem salsicha. Cachorro-quente virou algo eventual, uma vez por mês, quando eles pedem, e sempre com molho caseiro.”
Até os momentos de lazer em torno da comida passaram a ter outro significado dentro de casa. “As crianças não foram acostumadas com bolachas e lanches o dia todo. Temos horário de refeição. No café, geralmente é pão com muçarela. Às vezes faço leite com chocolate, mas bem clarinho, com pouco achocolatado. E meu filho especial sempre prefere água.” Além dos cuidados com a alimentação, Simone preside o Instituto SuperMães, rede de apoio que acompanha cerca de 600 famílias atípicas. É lá que ela e os filhos mais novos realizam atividades físicas duas vezes por semana. O filho mais velho frequenta academia regularmente.
Cuidado integrado
O enfrentamento da obesidade infantil exige um olhar atento, contínuo e integrado entre família, escola, serviços de saúde e comunidade.
Na rede municipal, as equipes multiprofissionais das UBSs, orientadas pelas áreas técnicas de Saúde Nutricional, Criança e do Adolescente e da Mulher da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), conscientizam gestantes durante o pré-natal e o puerpério sobre alimentação saudável e amamentação. O incentivo continua de forma articulada entre UBSs e escolas por meio do Programa Saúde na Escola (PSE), que atua na promoção da saúde e na prevenção de doenças entre crianças e adolescentes.
Nos territórios, diversos equipamentos oferecem grupos voltados à promoção de hábitos saudáveis, como o “Alimente-se Bem Infantil”, da UBS Jardim da Conquista 2, na zona leste. A iniciativa integra a linha de cuidado da nutrição e surgiu diante do aumento de crianças com peso elevado para a idade e dos impactos físicos, emocionais e sociais relacionados à obesidade.
O grupo atende crianças de 7 a 14 anos encaminhadas pela Estratégia Saúde da Família e acompanhadas pela educadora física Bruna Menegaldo, pela nutricionista Vanessa Xavier e pela psicóloga Graciene Vieira Souza. O objetivo é promover cuidado integral e incentivar hábitos saudáveis desde a infância, utilizando metodologias lúdicas e participativas.
Entre as atividades desenvolvidas estão educação alimentar e nutricional, reconhecimento de alimentos saudáveis, estímulo sensorial por meio do olfato, paladar e tato, além da montagem de pratos equilibrados. As crianças também participam de ações de conscientização sobre os riscos do consumo excessivo de ultraprocessados, desenhos, jogos educativos, desafios de experimentação de novos alimentos, visitas à horta e feiras livres. Na área de atividade física, são estimulados o gasto energético, a prática regular de exercícios e hábitos ativos de forma prazerosa, com jogos, brincadeiras e dinâmicas corporais.
O acompanhamento psicológico aborda autoestima, emoções, bullying, relações sociais, estratégias para lidar com ansiedade, além da importância da rotina e dos impactos negativos do uso excessivo de telas no comportamento, no sono e na saúde. “O fortalecimento do vínculo familiar também faz parte da proposta do grupo. Os pais e responsáveis participam ativamente, recebendo orientações e apoio para dar continuidade ao cuidado no ambiente domiciliar”, explica a educadora física Bruna Menegaldo. “Para isso, realizamos tarefas em casa que incentivam o preparo de receitas saudáveis junto aos responsáveis, além do compartilhamento de relatos e experiências vivenciadas pelas crianças e suas famílias.”
Ao longo do acompanhamento, a equipe multiprofissional observa melhora nos parâmetros clínicos dos participantes, mudanças nos hábitos alimentares e no estilo de vida, maior adesão às práticas saudáveis, controle do peso corporal e avanços nas questões emocionais e no convívio social.
A Área Técnica de Saúde da Criança e do Adolescente ressalta a importância da consulta de puericultura pois a interação da equipe de saúde com a criança e o adolescente e sua família/cuidador é fundamental. A atenção à criança e ao adolescente se estrutura visando ações sobre os determinantes dos agravos e a construção de ambientes e alternativas de vida mais saudáveis. Dessa forma, propostas dirigidas à aquisição de hábitos alimentares mais sadios, ao desenvolvimento de atividades físicas, à importância do brincar, o fortalecimento dos vínculos afetivos ou ações que possibilitem a incorporação de conhecimentos sobre o processo saúde/doença constituem caminhos efetivos de promoção da saúde.
Vale ressaltar que a saúde da criança não se inicia no momento em que ela nasce. No pré-natal são trabalhados hábitos saudáveis e a mulher é preparada para a amamentação. O aleitamento materno exclusivo até 6 meses de idade e continuado por pelo menos até 2 anos de idade e a alimentação saudável, comida de verdade sem ultra processados é o melhor caminho para não se ter obesidade.
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