Hospital do Servidor Público Municipal
Superbactérias: O perigo em não realizar o tratamento adequado
Bactérias são organismos formados por uma única célula que vivem no planeta Terra há cerca de 4 bilhões de anos antes dos seres humanos aparecerem por aqui, e habitam os mais variados ambientes, até dentro de nós. A grande maioria das bactérias é benéfica e ajuda na produção de alimentos , como na produção de queijos e pães, auxiliam a digestão, a produção de remédios, ou simplesmente vivem e não fazem mal algum aos seres humanos. Porém, uma pequena parcela desses seres vivos, quando entra em contato com o homem, é capaz de infectar tecidos e causar doenças, algumas muito graves e chegando ao óbito.
Com a descoberta dos antibióticos em 1928 uma nova era começou para esses micro-organismos, já que a maioria deles era sensível e morriam na presença dos primeiros antibióticos, mas como esses seres vivos já estão na Terra há muito mais tempo que os humanos, “sua inteligência” fez com que criassem mecanismos que burlassem essas substâncias, gerando uma resistência a esses antibióticos.
Uma segunda consequência foi a seleção de bactérias resistentes aos antimicrobianos com seguido aumento de sua população, e a terceira consequência foi a transferência dessa resistência a outras bactérias da mesma espécie e até de espécies diferentes, o que nas últimas duas décadas tem “criado” as superbactérias, agentes que causam doenças, mas que não são mortos pelos antibióticos que temos disponíveis atualmente.
Dr. Ricardo Cantarim Inácio, médico do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar do HSPM, explica nesta edição do HSPM Responde como surgem, quais as consequências e a melhor forma de preveni-las.
1) O que são as Superbactérias?
São as bactérias que se tornam mais “fortes” (resistentes aos antibióticos) por causa do uso indiscriminado de antibióticos, grande parte das vezes de forma errada. O que pode parecer uma profecia alarmista é na verdade uma realidade nos sistemas de saúde de todo o mundo. A resistência aos antimicrobianos, especialmente a resistência aos antibióticos, é um tema que preocupa tanto os países desenvolvidos como países em desenvolvimento. O problema é mais sério em locais onde o consumo de antibióticos não é bem controlado nem orientado.
2) Como elas surgem?
A explicação para o surgimento de bactérias mais resistentes está na teoria da seleção natural das espécies elaborada por Charles Darwin. Quando são expostas aos antibióticos, um grupo pequeno de bactérias mais fortes pode sobreviver e posteriormente se reproduzir. Isso significa que, a cada geração, as bactérias mais resistentes dão origem a outras bactérias que também são resistentes.
Quando o microrganismo é resistente a um ou mais antimicrobiano de três ou mais categorias dizemos que ele é multirresistente.
Não podemos esquecer que o uso de antibióticos de forma indiscriminada na veterinária, como no caso de usar alguns antibióticos para ajudar os frangos crescerem mais rápidos e irem mais cedo para o abate, dentre vários outros usos; há artigos mostrando que essa prática também induz a geração de bactérias resistentes no nosso meio.
3) O que significa “usar um antibiótico da forma errada”?
Significa indicar um antibiótico para tratamento de infecções virais (exemplo usar antibióticos para tratar um resfriado comum ou uma gripe), ou uso de antibióticos por tempo muito prolongado, maior que o necessário para o tratamento de uma determinada infecção (por exemplo, usar um antibiótico por 14 ou 21 dias para tratar uma infecção urinária que requer no máximo 5 a 7 dias de tratamento), ou até usar um determinado antibiótico que não tem indicação para uma certa infecção por falta de conhecimento. Todos esses casos contribuem para que a bactéria se acostume com o medicamento e se torne mais resistente com o passar do tempo.
4) Quais as consequências?
Para os pacientes, a escolha do tratamento com antibiótico fica muito mais difícil já que apenas antibióticos específicos e mais fortes serão capazes de combater estas superbactérias. Dependendo do quão resistente é esse micro-organismo, pode ser que não haja medicação existente que consiga controlar a infecção, que necessite de internações recorrentes destes pacientes para uso de antibióticos endovenosos ou até que realmente não haja antibiótico para tratar aquela bactérias, sendo necessário uso de dois ou mais antibióticos ao mesmo tempo, o que pode inclusive aumentar o risco de efeitos colaterais. No caso dos hospitais, as superbactérias são um problema grave já que podem ocasionar infecções cruzadas, como as Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (IRAS) nos pacientes, complicando ainda mais os quadros clínicos.
5) Como preveni-las?
É fundamental que haja um maior cuidado e atenção na administração e recomendação dos antibióticos, para que as bactérias atuais não desenvolvam resistências aos antibióticos e se tornem superbactérias. Uma medida que restringiu o uso de antibióticos na população foi a necessidade de receitas especiais para a venda de antibióticos, mas mesmo assim, o paciente sempre deve ficar atento se este antibiótico é realmente necessário e questionar o profissional prescritor.
O maior controle no uso de antibióticos na veterinária é uma medida que também deve ser instituída para evitarmos o surgimento de superbactérias no ambiente em geral.
No hospital, o trabalho do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar (SCIH) no controle do uso de antibióticos e na orientação da forma correta do seu uso é imprescindível para que esses micro-organismos não se desenvolvam nem sejam disseminados entre os pacientes. Por isso, higienizar corretamente as mãos, desinfetar as superfícies, garantir a medicação correta e tomar as medidas de isolamento em casos de infecções por superbactérias são atitudes fundamentais para ajudar a controlar esse problema.
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