Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social
Do acolhimento ao recomeço: como funciona o processo de desacolhimento no Serviço Família Acolhedora

Foto: Criança acolhida por Sara, desenhando em casa durante acolhimento familiar / Arquivo pessoal
Jennyfer Reis
"As pessoas imaginam que seja uma coisa assim: tchau, amanhã ele vai embora. Não..." Alerta Sara Cristina Nogueira, 45, família acolhedora do Serviço de Acolhimento em Família Acolhedora (SFA) Esperança Lapa, ao descrever um dos momentos mais delicados do acolhimento familiar: o desacolhimento; quando a criança ou o adolescente deixa a casa da família acolhedora para iniciar uma nova etapa de sua vida.
Diferente do que muitos imaginam, o desacolhimento não é uma ruptura abrupta. Esse processo começa a ser trabalhado antes mesmo de a família receber uma criança. Durante o processo formativo para habilitação, as famílias acolhedoras são preparadas para compreender que o vínculo construído será temporário e que, ao final, a criança seguirá para uma nova etapa de sua vida. Quando há uma definição judicial sobre o futuro da criança, esse trabalho é intensificado: os atendimentos são voltados à elaboração da despedida e à preparação para a nova etapa, sempre alinhados ao tempo emocional da criança, com o objetivo de minimizar os impactos do encerramento do acolhimento.
Segundo Gessy Rocha Duarte, assistente social de formação e gerente do SFA Esperança Lapa, a decisão sobre o futuro da criança acompanha o andamento do processo na Vara da Infância e da Juventude. "Quando chega o momento de uma decisão favorável para que aquela criança volte para a família ou seja realmente encaminhada para a adoção, a família acolhedora é informada. Aí a gente começa a trabalhar essa ideia da despedida, faz uma transição cuidadosa", explica.
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece que a permanência em acolhimento não deve se prolongar por mais de 18 meses, salvo comprovada necessidade mediante avaliação técnica; e é dentro desse período que a ideia de despedida gradual precisa ser construída. "Vai ter criança que vai estar preparada para ir embora em um mês, outra em dois, outra em três, e isso é muito relativo ao tempo que ela ficou acolhida", afirma Gessy. O planejamento da transição é realizado de forma articulada entre a equipe técnica do serviço, o Sistema de Justiça e a família acolhedora, sempre priorizando a preparação tanto da criança quanto de quem a recebeu.
A despedida
Sara acolheu um menino que permaneceu sob seus cuidados por pouco mais de um ano. O processo de desacolhimento, segundo ela, começou em novembro 2024 e se estendeu até março 2026, um período dedicado a preparar a criança emocionalmente para a mudança. "Foi muito bem planejado. Foi uma coisa muito construída com ele também, sempre na perspectiva de: olha, você vai ter uma família, você vai ficar com sua irmã, vai ter uma casa só para você, um quarto que é seu", relata.
Enquanto o desligamento é preparado, o acompanhamento técnico à família acolhedora segue integralmente. De acordo com Gessy, a equipe técnica realiza atendimentos mensais, presenciais ou on-line, mantém contato diário por grupo de WhatsApp e faz visitas domiciliares, preferencialmente com a criança presente. "A comunicação é diária. Muitas famílias acolhedoras relatam que o momento mais difícil para elas é o desacolhimento, e esse processo é sempre acompanhado de perto, com muito cuidado, pelo serviço, pela família e pela criança", afirma a gerente.
Ao final do processo, o menino foi acolhido por família extensa, representada por uma pessoa que já cuidava de sua irmã desde pequena. "Ele vai conseguir olhar para a história dele e falar: eu fui acolhido, eu fui querido por uma pessoa que não era da minha família", diz Sara, que mantém contato com a criança até hoje. Semanas após a saída, ele retornou à casa da antiga família acolhedora para comemorar seu aniversário ao lado da rede de apoio construída durante o período de convívio.
Apesar do vínculo afetivo construído, a legislação é clara quanto aos limites da função da família acolhedora: em nenhum momento ela assume a guarda definitiva ou estabelece vínculo legal de filiação com a criança acolhida. O desacolhimento é, justamente, a etapa em que esse caráter temporário e transitório da medida se concretiza, seja pelo retorno à família de origem ou extensa, seja pelo encaminhamento à adoção.
Uma missão que se renova
Para Sara, o fim de um ciclo de acolhimento não encerra sua relação com o serviço. "Essa é a minha galera. Eu me encontrei no serviço de acolhimento. Quero estar assim, direto ou indiretamente, voluntário ou não, trabalhando ou não", diz, ao afirmar que pretende acolher novamente em breve. "Essa coisa de 'ah, essa missão acabou, bora para a próxima' me agrada demais."
Sobre quem ainda hesita em se tornar família acolhedora, o recado de Sara é direto: "Se permita. Quando a gente não conhece algo, precisa se permitir a conhecer para depois dizer se serve ou não. E com certeza serve, porque esse serviço não escolhe condição financeira nem família padrão. Escolhe quem pode dar tempo de qualidade para uma criança."
Sobre o Família Acolhedora
O Família Acolhedora oferece acolhimento provisório a crianças e adolescentes afastados do convívio familiar por decisão judicial, nas residências de famílias cadastradas e capacitadas, até o retorno à família de origem ou extensa, ou o encaminhamento para adoção. O cuidado individualizado e o vínculo afetivo estável favorecem o desenvolvimento motor, cognitivo e emocional, especialmente na primeira infância, público prioritário do serviço. Em 2026, o SFA já realizou 50 acolhimentos e 14 saídas qualificadas; desde 2022, soma 236 acolhimentos e 192 saídas qualificadas, cerca de 80% dos casos.
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